Carlos Peixoto e Ana Lúcia: Anorexia

Carlos Peixoto e Ana Lucia, sua esposa, eram velhos conhecidos . Fizéramos diversas matérias em mídia. Quando, efetivamente, nos conhecemos em um programa de Tv, solidificou-se uma amizade. Esses amigos perderam uma filha para a anorexia nervosa. A partir daí se tornaram palestrantes visando alertar, através de seus depoimentos, as pessoas acerca dos perigos desta moléstia. É uma autêntica missão !

Muito grato, Carlos e Ana ! Com vocês a palavra!

Depoimento

O que aconteceu conosco.

No dia 20 de maio de 1999, infelizmente nós perdemos a luta para a anorexia associada à bulimia. A nossa filha Paula que quinze dias antes havia completado seus 18 anos, faleceu vítima daquelas terríveis doenças num processo que durou cerca de 10 meses.

Desde que notamos que algo não estava bem, procuramos a ajuda de um psiquiatra que a acompanhou nos meses em que as doenças gradativamente iam consumindo a nossa filha. Aparentemente a Paula estava cooperando com o tratamento mas notávamos que apesar dos remédios que tomava ela ainda estava perdendo peso. Quando descobrimos que ela estava vomitando o pouco que comia, procuramos rapidamente o Psiquiatra que a encaminhou para uma nutricionista e a ameaçou de interná-la num hospital para que se alimentasse adequadamente. A Paula, muito esperta como era, convenceu o psiquiatra e a todos nós para fazer um tratamento domicílio pois, segundo ela, não queria faltar as provas do primeiro bimestre do primeiro ano do Curso de Direito que recentemente havia ingressado. Ele se propôs a fazer qualquer tratamento, desde que não fosse necessária a internação. E assim foi feito. Todos os remédios prescritos foram tomados; as injeções de complementos vitamínicos endovenosas foram aplicadas e a nutricionista foi acionada para acompanhar com um cardápio e reeducação alimentar.

Para nós, achávamos que as coisas iriam se acertar e que a nossa Paula em breve nos daria a alegria de recuperar o seu peso e tocar a sua vida em frente.

Na noite de 19 de maio ela seguiu par a faculdade de direito da Universidade da Grande Dourados (Dourados-MS), juntamente com o seu irmão Alexandre que estava no terceiro ano do mesmo curso. Naquela noite especial haveria um “Júri Simulado” e todos os alunos participariam. Houve um sorteio para a composição do “Conselho de Sentença” e ela foi sorteada para participar do mesmo. Por volta das 23 horas ela e o irmão, chegaram em casa após as aulas, e ela estava eufórica, contando da vergonha que havia tido em ter que ficar “lá na frente” com todos olhando para a “cara” dela. Conversamos por um bom tempo, onde ela nos contava como transcorreu a simulação do julgamento, dizendo do resultado onde o réu havia sido condenado por 5 a 2 e, ao mesmo tempo em que fazia uma tal de “esfiha aberta” de carne moída que havia aprendido fazer num programa de TV durante o dia. Nós quatro participamos daqueles momentos de união e confraternização da família que na cidade de Dourados era composta de apenas quatro pessoas; Carlos, Ana, Alexandre e Paula.

Cerca meia noite e meia, fomos todos dormir pois teríamos os nossos afazeres no dia seguinte, à exceção da Paula que seguiu para o seu computador, coisa que fazia diariamente até altas horas da madrugada, para bater papos com amigos virtuais de língua inglesa, cujo sonho era um dia poder passar uma temporada no Canadá, na Austrália ou nos Estados Unidos.

Na manhã de 20 de maio, o pai seguiu para o seu serviço, a mãe iniciou a lida da casa, o Alexandre estudava no seu quarto e a Paula dormia. Às 12 horas, o pai retornou para o almoço, todos almoçaram a exceção da Paula que diariamente dormia até por volta da 14 horas devido ter dormido muito tarde nas noites anteriores. O pai após o almoço retornou para o serviço da tarde e nesse ínterim, a mãe resolveu dar uma passada no laboratório de análises clínicas, próximo à nossa casa, para apanhar os exames de laboratório que a Paula havia feito no dia anterior. Com os resultados nas mãos, a mãe se surpreendeu pois pela primeira vez, estava aparecendo uma discreta anemia e o colesterol total estava passando de 200. Como mensalmente e Paula fazia os mesmos exames e sempre os resultados davam normais; a mãe apressou-se em retornar para casa para acordá-la e informar que os seus “regimes loucos” já estavam começando a dar problema. Ao tentar acordá-la, sentiu que a mesma não respondia. Chamou o Alexandre que estava no quarto ao lado e ambos sentiram que algo não estava bem. A Paula estava desacordada. Imediatamente a tomaram nos braços e a levaram para um Posto Médico onde o médico de plantão verificando o caso, rapidamente ordenou a transferência para a UTI de um hospital maior. O pai que estava em sala de aula onde era professor, foi alertado para que se dirigisse ao Hospital pois a Paula havia sofrido um desmaio mas estava tudo sob controle. Imediatamente se dirigiu par o hospital onde encontrou a mãe e o irmão; mais alguns amigos, todos muito nervosos com o acontecido. A Paula estava na UTI, no andar de cima do hospital, onde não era permitido o ingresso de pessoas que não fossem do quadro médico.

Cerca de uma hora se passou quando um médico, amigo da família que estava na UTI, desceu e chamou o pai para uma sala onde deu a triste notícia. Deste momento então, iniciou-se o processo dolorido das despedidas, velório, sepultamento, pêsames etc. Uma sensação de vazio, impotência, profunda tristeza, revolta, envolvia todos nós. Era o primeiro parente próximo que perdíamos ao nosso lado. E agora; como seria a nossa vida sem a nossa Paulinha que tão cedo estava nos deixando. Jamais os pais podem imaginar que poderão sepultar os seus filhos. A lei normal da vida é o contrário. Que sensação horrível.

Durante o velório, numa noite muito fria de 20 para 21 de maio, centenas de pessoas passavam, se emocionavam ao ver aquela jovem linda, ali imóvel, viam o desespero dos pais, dos amigos de escola, enfim, era uma cena que jamais nos esqueceremos. A Ana num certo momento me chamou e me propôs que deveríamos iniciar um movimento de alerta para outros pais e mesmo outras meninas para que tomassem cuidado com aquelas doenças que poderiam levar à morte suas filhas.

Dois dias após o sepultamento, Carlos começou a pesquisar na própria Internet que a Paula tanto gostava e para sua surpresa, uma das primeiras informações que obteve foi que 20% das anoréxicas morrem por complicações cardíacas pela falta de potássio no organismo. Uma bomba. Como não sabíamos disso! Parada cardíaca foi a causa da morte da Paula.

Desde então, procuramos nos informar sobre tudo que diz respeito à anorexia e à bulimia. Textos, reportagens, fotografias, filmes; tudo não passa desapercebido dos nossos olhos e dos nossos sentidos. Conseguimos reunir um acervo razoável que tem sido motivo de apoio para muitas jovens que têm o problema ou mesmo que realizam trabalhos em suas escolas sobre os transtornos Alimentares.

Algumas páginas na NET estão sendo veiculadas através do apoio de pessoas que nem mesmo conhecemos pessoalmente, mas que se solidarizam com a nossa luta e nos apóiam dentro das suas possibilidades.

Uma palestra para ser ministrada nas escolas, nas associações de Pais e mestres, nas igrejas, reuniões de bairros ou onde quer que tenham pessoas reunidas, nós nos propusemos a alertar para essas doenças que em muitos casos entram na sua casa e você não sabe que é um problema que poderá se agravar e ter um desfecho terrível.

Graças às páginas na NET, fomos procurados diversas vezes por Canais de Televisão, Jornais, Revistas, Estações de Rádio a fim de que prestemos o nosso depoimento. Não é fácil ficarmos a cada momento relembrando o acontecido; mas a vontade de alertar outras pessoas, é maior. Após cada participação em que o nosso E Mail ou o endereço das nossas páginas é divulgado, a quantidade de mensagens que recebemos é enorme. São jovens com o problema; são pais que se ligam ao problema e o identifica nos seus próprios lares, são namorados, amigos, parentes que nos procuram para tirar dúvidas ou nos parabenizar; são tantos casos que até nos assustamos com tremenda repercussão.

Bem, temos a certeza que conseguimos colocar nessas poucas linhas um pouco do que nos aconteceu. A nossa missão continuará até os nossos últimos dias. Vamos continuar na luta e ajudar outras jovens ou mesmo os seus pais para que tenham um maior conhecimento das doenças e possam orientar no tratamento de seus filhos. Realmente; se soubéssemos o que sabemos hoje, talvez a nossa Paulinha ainda estivesse aqui para contar uma história diferente. Deus não nos permitiu que isso acontecesse. Quem sabe se a nossa missão não fosse essa de alertar outras pessoas através de um sofrimento terrível.

Um beijo a todos e todas que tiverem a oportunidade de ler essas palavras. Boa Sorte.

Até Breve.

Carlos, Ana Lucia e Alexandre.