Da raiva ao ódio

Ao lado do medo, a raiva é a emoção mais primitiva dos animais.Até os mamíferos, pode ser entendida como estratégia de sobrevivência, como uma reação de defesa análoga à agressividade diante de situações onde a vida está em jogo e como componente do instinto de caça. Podemos dizer que um cão de guarda “sente raiva”, numa linguagem humana, de um agressor e se volta contra ele protegendo seu dono e sua propriedade, se conceituarmos essa “raiva” como um conteúdo puramente animal, como uma reação de defesa à ameaça. Espantado esse intruso, o cão volta ao seu normal. Um animal ameaçado pode lutar ou fugir e essa reação de luta pode ser análoga à raiva.

Na espécie humana a conotação é muito mais ampla. Quando nos sentimos frustrados, um direito nosso é violado ou nos “passam para trás”, sentimos raiva. Porém, diferentemente dos animais, fomos educados para reprimir este sentimento. A família, a escola, a cultura, a etiqueta, a igreja o vêm como um sentimento condenável, como deselegante ou pecaminoso.Decorre que somos moldados a suprimir a raiva. MAS…Ela se faz presente e é o sentimento mais difícil de ser controlado, pois se realimenta por pensamentos, reações fisiológicas, e nos leva a “ruminar” sobre o ocorrido, acerca do que devíamos ou não ter feito. Daí a possíveis idéias de retaliação é um pulo. O sentimento agudo, rápido, instintivo consiste na raiva. O segundo momento, onde ela se cronifica, pode ser visto como ódio. No nosso exemplo, o cão sentia “raiva” e se insurgia contra o agressor. Finalizada a ação retornava ao equilíbrio. Ódio sentimos nós, quando a raiva é mal trabalhada, seguindo-se o rancor, o ódio e a retaliação. Dizemos que o ódio é a raiva “em conserva
Mas, como expressar a raiva sem ser como nos animais, agredindo, ou como fomos educados, reprimindo?

Felizmente, o ser humano não tem só desvantagem…Sua evolução propicia o comportamento verbal, a capacidade de se comunicar através da linguagem, de negociar, de se posicionar em relação ao que não concorda. Adquiriu a possibilidade de dizer assertivamente o que quer transmitir, com franqueza, mas sem agressividade. De argumentar baseado na divergência de fatos e não de pessoas.

Quantos de nós sabemos dizer “não” sem nos sentirmos culpados ou em débito? Quantos discordamos de uma crítica improcedente sem “pular na jugular” do interlocutor ou “engolindo” e depois remoendo? Quantos sabemos pedir ou recusar um pedido de favor sem raiva ou culpa? Em nossas vidas, nos relacionamentos pessoais, profissionais, conjugais e outros a assertividade é fundamental!

Mas se fomos “treinados” a vida toda na não asserção, como consegui-la? Na realidade isso não “cai do céu”. Precisamos ser re treinados em comportamentos assertivos e isso demanda tempo e trabalho.

O desenvolvimento da assertividade é um tópico muito trabalhado nas formas mais modernas e atuais de psicoterapia, como a Psicoterapia Cognitiva e Comportamental. Os benefícios da assertividade interferem positivamente em todas as situações interpessoais e constitui poderoso antídoto para o tratamento da raiva. Lembremo-nos que a raiva, além de péssima conselheira, é poderoso componente de doenças diversas, como, por exemplo, moléstias cardiovasculares, hipertensão, apenas para citar algumas.