Comer compulsivo 2

Os comedores compulsivos comem quando não estão com fome. Qualquer emoção mais forte, negativa ou positiva, provoca uma reação de aproximação da comida. Comem quando estão tristes, alegres, com raiva, solitários, deprimidos, excitados ou diante de qualquer outra emoção ou situação. Sentem-se compelidos a comer.

Alguns autores questionam se o benefício do comedor compulsivo não seria o afastamento de sua real problemática. Muitos comedores compulsivos parecem mais preocupados com o emagrecimento do que em tornarem-se magros. Num certo aspecto ficam mais preocupados com o ato compulsivo em si, do que com os fatores de stress ou ansiedade que o geraram. A mulher insatisfeita sexualmente volta-se para a comida e, mais que enfrentar sua problemática sexual, passa a preocupar-se com a compulsão alimentar que, sob este prisma, pode ser vista como um mecanismo de enfrentamento inadequado de situações problemas. O comportamento do compulsivo repete-se e perpetua-se em ciclos viciosos: após comer, abomina esse comportamento e, com isso, aumentam o stress e a situação de ansiedade que o levam de volta à comida.

A intensidade dos excessos é diretamente proporcional ao grau de comprometimento da auto-estima.

Contudo, nem todo comedor compulsivo se excede. Existem aqueles que comem mais, com maior freqüência, que criam hábitos alimentares diversos e não motivados pela fome, como comer alguma coisa toda vez que passam pela cozinha. O determinante é o comer na ausência de fome. Outros não diferenciam outras sensações daquela da fome.

Nem todo comedor compulsivo é, necessariamente, gordo. Exemplo disto são as modelos com peso clínico muito baixo, que comem freqüentemente “a mais” em situações de ansiedade e pela dieta quase crônica a que muitas se submetem. Muitas “saem do padrão” necessário ao exercício da profissão, sem tornarem-se gordas. Excessos compulsivos são documentados em “todos os pesos”.

Estudos com jovens universitárias e com modelos femininos levantam alguns fatores preditivos da intensidade dos excessos:

  • Maior preocupação com alimento , dieta, busca da silhueta ideal.
  • Medo de perder o controle
  • Insatisfação com a imagem corporal, inclusive por má avaliação da auto-imagem
  • Auto – estima ou auto – imagem diminuídas.
  • Maior grau de stress e ansiedade.

O aspecto central do comedor compulsivo é a baixa auto – estima. A pessoa que come compulsivamente deve ser avaliada ainda quanto à habilidade de enfrentamento de situações problemas e de comportamento interpessoal assertivo.

O desenvolvimento de a compulsão alimentar pode ser baseado na dificuldade adquirida de distinguir a fome de outras sensações. A falta de percepção adequada de estímulos internos faz com que o comedor compulsivo o faça por resposta a outros sinais que não a fome.

Como se associam esses sinais?

Habitualmente, na infância, os pais alimentam um bebe sempre que chora. Um bebe chora por fome, mas também por estar molhado, com frio ou por qualquer outro motivo desvinculado da alimentação. Fica condicionada, acostumada a ser atendida em qualquer situação estressante por comida e estabelecemos um vínculo muito precoce e muito forte entre comida e alívio de situações angustiantes. O comedor compulsivo estabelece o alimento como “solução de problemas” ou redutor de tensão. Passa a utilizar a comida com “lenitivo” para sensações desagradáveis tão logo elas apareçam, mesmo num limiar muito baixo para serem percebidas e identificáveis com clareza. Um “sinal desagradável” leva automaticamente ao prato! Foi estabelecida uma ligação muito forte comida-segurança!

Acresce ao problema as pessoas que fazem “dieta crônica”. Apresentam uma “fome sub-liminar” latente, passível de ativação ao mínimo estímulo. Ao fazerem o que abominam, comer, desenvolve-se a culpa, que reforça a ansiedade, que leva de volta à comida…

Outros apresentam uma “filosofia dietética” que consiste em submeter-se a rigorosas dietas para permitirem-se “comer tudo o que quiserem” logo depois e, em seguida passarem a nova e rigorosa dieta. Haverá, evidentemente, uma vulnerabilidade aumentada pela alternância “comer tudo o que quer” X “Dieta apertada”.

O desconhecimento ou a inaceitação do próprio biotipo, a busca de ideais de beleza irreais, incompatíveis com as características individuais são cruciais na formulação da avaliação errônea da auto-imagem. Uma garota que tenha ossos grandes, músculos bem desenvolvidos, pode, erroneamente, avaliar-se “gorda” mesmo estando muito magra e se estiver com baixa auto-estima poderá querer “emagrecer” visando um ideal de beleza desvinculado de um escrutínio mais ponderado. Ou achar que o “ideal de beleza” é tudo aquilo que ela não é, ignorando a própria identidade estética…

O que sente o compulsivo?

Diante de uma situação emocional que não identifica, refere urgência em comer, “angústia”, “aflição” e “não vê a hora de comer”.