Beleza feminina, saúde e autoestima

É mais fácil sentir a beleza do que defini-la. Como já foi dito, a beleza é composta de partes iguais de carne, imaginação e crenças – e é aí que mora o perigo, não da beleza em si, mas do que a cultura ocidental determinou como conceito estético feminino.

O movimento cultural ocidental, via moda e publicidade, impinge à mulher uma crença única de beleza: a das modelos, mulheres lindas, mas que não detém o monopólio da beleza. E que, além disso, trabalham no que chamo de “estado de produção”, que significa horas de filmagem e centenas de fotos para menos de trinta segundos de comercial ou uma foto para a divulgação de um produto com direito a tratamento digital posterior.

Como disse Cindy Crawford “nem eu, antes de passar horas com o cabeleireiro e o maquiador, pareço com a Cindy Crawford”. Sem respeitar o próprio biotipo, a mulher vive numa busca desenfreada por esse “padrão” (que de padrão nada tem) ainda que isso lhe custe qualidade de vida, tensão, ansiedade, tristeza, doenças e, em alguns casos, como nos dos transtornos alimentares, a própria vida. Afinal, a anorexia mata em 20% dos casos.

Exposta à mídia, a imagem corporal (auto-imagem) da mulher se deteriora e ela passa a perseguir o tal “ideal” – que se é ideal não é real. Vejo diariamente no consultório mulheres se debaterem nessa busca obsessiva, inclusive modelos. Pesquisas sérias acentuam o fato para populações não clínicas.

Em 2004, a Unilever, por meio da marca Dove, realizou pesquisa de alcance mundial. Ouviu 3200 mulheres em 10 paises, de 18 a 64 anos. Os números foram preocupantes: só 2% em todo o mundo se definiram como “bonitas” e, no Brasil, apenas 1%! 7% das brasileiras fizeram cirurgia plástica e 54% fariam se pudessem. Para 13 %, só as modelos são bonitas e outro tanto trocaria 25% de inteligência por 25% de beleza. Um autêntico “terrorismo estético”!

E mais: acreditam que a beleza traz a felicidade. Se isso fosse verdade, modelos, supostamente detentoras do tal “padrão” deveriam estar muito felizes… Pesquisa por mim realizada com 140 modelos, de 18 anos em diante, revelou que todas estavam insatisfeitas com a sua aparência e queriam emagrecer, em média, 3 kg. A nota média que deram para seus corpos foi 6,3 e para o rosto, 7,2. Mas, tivemos vários “zeros” auto-avaliados por mulheres às quais daríamos 10.

A ciência tem se preocupado com o estudo da beleza. Quando trabalhamos com esse atributo falamos no “ser bonita”, dado biológico, expresso por características físicas que provocam interesse do homem e que indicam saúde, juventude, fertilidade. Num sentido darwiniano, a beleza está ligada à reprodução e ser bela é ser sexualmente atraente, e poder transmitir genes saudáveis. Importante ressaltar que a percepção da beleza feminina pelo homem ocorre em regiões primitivas do cérebro. É uma resposta visceral, não aprendida, universal. Entre os sinais de atratividade, podemos citar a relação cintura-quadril, simetria, lábios grossos, entre outros.

Além do lado biológico, existe o “estar” bonita, englobando a tecnologia da beleza, mais os cuidados pessoais. Higiene, alimentação, atividade física, repouso, procedimentos estéticos, maquiagem, moda, entre outros. A finalidade é acentuar os sinais de atratividade, realçar os pontos positivos e disfarçar os negativos.

Mas, mais importante do que ser ou estar é SENTIR-SE bonita! O grande potencializador da beleza, além da saúde, é presença de uma auto-estima adequada, quando a mulher aceita e valoriza o que é seu, sua identidade estética, seus diferenciais, aquilo que a torna única e não um padrão, seja ele qual for.

A baixa auto-estima está presente como ponto central em todos os transtornos psicopatológicos. Anorexia, bulimia, obesidade, compulsão alimentar, ansiedade, timidez, dificuldades conjugais, a tem como parceira inseparável. Porém, não é necessária a presença de problemas emocionais para que a baixa auto-estima prejudique seriamente a qualidade de vida. Existem pessoas para as quais a felicidade é um ônus. Parecem ter medo de ser feliz. A BAIXA AUTO-ESTIMA, entre outras coisas, FAZ COM QUE SE ALTERE A PERCEPÇÃO DA PRÓPRIA IMAGEM.

Os prejuízos para a mulher são imensos. Em 2005, Dove foi além e, em outro estudo, ouviu 3300 mulheres em 10 países, entre 15 e 64 anos. De novo, os números são impressionantes. 70% evitam situações de vida diária (trabalho, ir à faculdade, entrevista de emprego, emitir uma opinião, compromissos sociais, praia, reuniões, ir ao médico) quando não se sentem bem com sua aparência. 97% das meninas acreditam que mudar algum aspecto físico melhoraria a auto-estima, 90% querem mudar algo em sua aparência; as meninas o peso do corpo, as mulheres a forma. 68% consideram a possibilidade de se submeterem à cirurgia plástica, sendo 53% adolescentes!

Como psicoterapeuta, vejo em meu trabalho diário que mulheres mais bem sucedidas em outras áreas de suas vidas estão mais satisfeitas com sua aparência. Esse dado é ressaltado pelo estudo Dove de 2004. Além disso, mulheres mais satisfeitas com a aparência incluem outros fatores: simpatia, inteligência, humor, felicidade.

Mulheres com auto-estima adequada se aceitam mais e se enxergam melhor. Gostam de si e não se comparam com ninguém. Estão “de bem” consigo mesmas. Respeitam seu biotipo e compreendem que não há beleza sem saúde. Modificam o que pode ser modificado e convivem com o que não podem ou não querem. Compreendem que perfeição não existe e que beleza é muito mais que atração física. Valorizam a real beleza (1), e a vêem como beleza como algo pessoal, não ligada a padrões nem redutível a cor de olhos, cabelo ou pele, medida de cintura ou quadril. É um atributo intimamente ligado à felicidade.

Num sentido amplo, ser bonita é ser feliz!

(1) O conceito de real beleza questiona essa “crença única de beleza” uma espécie de mentira que aceitamos como verdade, sem questioná-la. Visa “desconstruir” esse vínculo com o “padrão” e retomar a essência da beleza, ampla, individual, aplicável a todas as formas, tamanhos, idades e etnias e intimamente ligada à auto-estima e à saúde. Um conceito que defende o “diferente de” e não o “mais que” em termos de beleza, descartando qualquer critério comparativo e que prega a individualidade em lugar do “padrão” e o “real” no lugar do “ideal”, sempre intangível. Traz de volta a democratização e a socialização da beleza, postulando a “beleza de cada um”.