Beleza e autoestima

Artigo escrito especialmente para a amiga Mylla Cristhie e seu “Myllainforma”

Quando Vinicius de Moraes afirmou que “beleza é fundamental” não atinava, com certeza, para as complexas implicações do conceito de beleza em termos de saúde, felicidade e qualidade de vida.

Na vida, na sociedade, na busca de emprego, nos relacionamentos, a “boa aparência” cada vez mais abre vantagem. Ainda que tenhamos aprendido que o que importa é a essência, na realidade a aparência, leia-se beleza, conta e muito. E entre a percepção da aparência (imediata) e a avaliação da essência (não imediata) decorre um espaço de tempo que favorece a beleza e sobre o qual edifica-se a industria da estética.
Produtores de novelas, publicitários, diretores de TV, estilistas, sabem que “beleza vende”. O produto em si e a ilusão inconsciente de ser “como a protagonista” ou referendada por ela. Um produtor de novela diz com a maior tranqüilidade “protagonista tem de ser bonita”. Ela não sustentará a novela, mas o passaporte de entrada é a beleza. Depois, se estiver preparada, poderá fazer carreira.

Mas…O que é beleza? Como definí-la? Qual o preço para alcança-la?

Beleza não é um juízo de realidade, mas de valor. Já foi dito que “os valores não são, eles valem”. Traduzindo, beleza não é mensurável. Não posso dizer que “A é mais bonito que B” apenas que “eu acho A mais bonito que B”. Que na minha ótica, do meu ponto de vista, baseado em todo um universo de conceitos e numa série de emoções eu acho A mais bonita que B. Essa avaliação é subjetiva, intima e pessoal, o que não quer dizer que outras pessoas não concordem.

O conceito de beleza é variável histórica e geograficamente. No tempo e no espaço.A beleza ocidental não é a beleza de uma tribo africana.

No pós-guerra, com a emancipação da mulher no mercada de trabalho, passou-se a exigir delas “boa aparência”. Influenciada pela moda, publicidade, mídia, academias de ginástica e, porque não, pela área de saúde, passou-se a buscar um padrão mais longilíneo. Os índices mundiais de obesidade cresciam de maneira alarmante e paralelamente a “industria da obesidade” no afã de cura-la… Em 1989 os EUA contabilizavam US $ 27,9 bi e em 2000 US $ 60 bi com a “cura da obesidade”.Bilhões de dólares são gastos pela industria de cosméticos.
Na outra ponta da obesidade cresciam os problemas relacionados à busca dôo corpo ideal. E se é “ideal” não é real. Problemas gravíssimos como anorexia nervosa e bulimia vem no vácuo desta busca, matando em 20% dos casos e deixando 50% das sobreviventes com seqüelas. Meninas anoréxicas recusam atendimento médico/psicológico/nutricional e proclamam que “anorexia não é doença! É estilo de vida ou estado de espírito!” Divulgam na internet “métodos” de emagrecimento, fotos de suas silhuetas esquálidas que fariam inveja às mulheres de Biafra…O peso estético afasta-se perigosamente do peso clínico. Estudos mostram 100% de descontentamento das jovens com o próprio corpo. Mesmo as que tem peso normal ou abaixo querem emagrecer. Emagrecer significa “sucesso social”, “profissional”, “afetivo” e, principalmente, A NÃO REJEIÇÃO PELA SOCIEDADE, que, insuflada pela mídia, insurge-se contra as mais cheias como um autentico atentado terrorista. Um terrorismo estético!!! Mídia, passarelas, publicidade, novelas, academias, decretam, movidas pela industria da beleza, que sucesso = beleza (leia-se magreza). A cultura da beleza então pode ser vista como uma imposição da industria.A “criatividade” do estilista é imposta e governada pela industria têxtil, ou não?A moda e suas “tendências” são ciclicamente revistas para alimentar esta poderosa industria.

O conceito de beleza, não poderia, como de fato é, manipulado pela mesma industria? Seu marketing não vende a todos a sensação de inadequação que move ao consumo de seus produtos, de roupas e cosméticos a dietas e cirurgias plásticas?

O Brasil, possivelmente por ser um país tropical, onde a exposição do corpo se dá com muito maior freqüência e onde, infelizmente, a beleza das praias é inversamente proporcional à nossa formação cultural, é o maior consumidor mundial de anorexígenos (remédios para “tirar a fome”) que só deveriam ser prescritos por médicos, em condições especiais e após minuciosa avaliação clínica. E 90 % dos consumidores o fazem por razões estéticas.Somos o segundo pais do mundo em cirurgia plástica em números absolutos (só perdemos para os EUA) e o primeiro em números relativos (plásticas/mil habitantes).

Se beleza, nestes termos, fosse condição absoluta para a felicidade as modelos deveriam, como muita gente pensa, serem mulheres absolutamente realizadas, satisfeitas possuidoras do “padrão”, com o mundo a seus pés, milionárias e afetivamente realizadas. Vamos aos fatos. Em estudo que estou efetuando com modelos femininos, e já se vão muitas entrevistas, encontro 100% de insatisfação com a própria aparência, dados que não diferem da mulher não modelo. Todas referem alguma objeção à própria aparência, ou déficit de beleza ou excesso de peso! “Preciso emagrecer, fazer uma lipo” são algumas frases espontaneamente mencionadas. O nível de ansiedade e stress de uma modelo é superior ao de uma vestibulanda da mesma idade, estatisticamente falando.A maioria delas se sente desejada mas não amada e refere insegurança em relacionamentos. Para cada Gisele Bündchen existem milhões de meninas tão ou mais bonitas que não tem dinheiro para as despesas básicas.

Beleza é conceito intimamente ligado à saúde. Ao estudarmos os animais verificamos que os exemplares escolhidos por seus pares para acasalamento são os mais saudáveis.Existem estudos interessantes tentando estabelecer a simetria como critério de beleza entre os animais, de acordo com as preferências no acasalamento.
Nos humanos a simetria parece ser traço indicativo de beleza. Pessoas com distribuição simétrica de traços, como Ana Paula Arósio, são consideradas bonitas pela maior parte das pessoas. Ouvi de um estilista que “se todo mundo acha alguém bonito, então se trata de uma beleza comum”. Possivelmente sua recíproca é a “beleza exótica…” O que para mim, por exemplo, é um consolo… Já não preciso ter inveja do Paulo Zulu.Afinal, ele é “uma beleza comum…”.

Brincadeira à parte, além de ser ou estar, é preciso SENTIR-SE bonita. Beleza não pode ser reduzida a um conjunto de traços ou critérios puramente modais.TEM QUE EMERGIR DE DENTRO. Poderíamos afirmar que beleza é uma QUESTÃO DE SAÚDE E DE AUTO-ESTIMA. Mais que apenas “mulheres bonitas”, existem PESSOAS BONITAS. MAIS QUE PADRÕES FALEMOS NOS DIFERENCIAIS DE CADA UM. BUSQUEMOS A IDENTIDADE ESTÉTICA, aquilo que torna uma pessoa única na face da TERRA.