Amor, paixão ou doença?

Muitas pessoas, ao estabelecerem relacionamentos, vivem em grande ansiedade em perder seu objeto de apego. Ainda que tudo esteja bem, sentem-se arrasados à mera possibilidade do final da relação. Com enorme sensibilidade à rejeição, tornam cada relacionamento um martírio. Podem mergulhar em relacionamentos inviáveis, amores impossíveis deixando de lado família, amigos, trabalhos e outras coisas importantes em função dessas paixões doentias, prejudicando sua qualidade de vida e de seus objetos de afeto, confundindo esse sofrimento com amor. Muitos namorados e ex-namorados, casados e ex-casados, amantes e ex-amantes ou simplesmente admiradores platônicos se consomem em relações deste tipo, visando a não perda ou o resgate de uma relação. Ciúme patológico, vergonha, possessividade, hostilidade, sofrimento, ameaças, medo, angustia, raiva, retaliação…

Esse tipo de amor tem como tônica a necessidade de posse visando a não rejeição. A pessoa age tentando o controle de seu parceiro, temendo perdê-lo ou querendo resgatá-lo. Apresenta insegurança crescente e ciúme doentio. Numa relação normal a insegurança inicial vai dando lugar a maior confiança, ao longo do tempo, enquanto que, numa relação doentia, a pessoa se sente cada vez mais angustiada, preocupada, à beira da rejeição e da perda, mostrando-se insaciável em sua necessidade de afeto, aprovação e aceitação. Projeta no outro a razão de sua existência. Vive para ele, por ele, encarando-o como essencial para sua sobrevivência. Pensa obsessivamente nele nas 24 horas de seu dia, muitas vezes com enorme sofrimento.

A carência de afeto o coloca num estado permanente de eminência de rejeição, de ansiedade, de preocupação em relação à perda. Muitos narram que tão logo seus objetos de afeto se afastam sentem-se perdidos e desamparados.Precisam escutar sempre que são amados, permanecendo atentos a qualquer gesto ou inflexão de voz de seu parceiro que avaliem como rejeitadora. Fazem um “teste” de aceitação a cada momento, a cada encontro, telefonema, que baixa sua ansiedade apenas por poucos momentos. Dependem do outro afetivamente e quando o tem teme perdê-lo. Não há paz para estas pessoas.

Esse tipo de relação tem a ver muito mais com uma forma de obsessão onde se deseja desesperadamente uma pessoa, por mais inviável que seja a relação, e por mais que esta pessoa tenha sinalizado claramente ou o final da relação, ou seu desinteresse por ela, ou que essa relação simplesmente não exista.

Qualquer sensação semelhante à rejeição ou à mera suposição de rejeição gera intensa necessidade de posse, de controle do outro, levando a aumentar a pressão, sufocando o objeto de afeto e provocando nele raiva e irritação, que são avaliadas como uma confirmação da rejeição, diante da qual apertam o cerco através de ciúme, desconfiança, cobranças, provocando mais rejeição…O ciclo se perpetua em espiral crescente. .

Um parceiro deste tipo não aceita que um relacionamento possa acabar. Não processa os sinais de que a relação acabou. Há sempre uma tentativa de resgate, que provoca mais rejeição e a rejeição é a mola mestra do processo patológico. Quando a rejeição ocorre, a pessoa “quer porque quer!” Seu amor próprio foi ferido e ela busca recuperá-lo. Na busca da reconquista são utilizadas as mesmas estratégias que não funcionaram antes e que irritaram o parceiro. A rejeição provoca dor, depressão e depois a raiva, que pode levar à retaliação. Podem ocorrer comportamentos impulsivos, agressivos contra seus parceiros. Telefonemas, cartas e presentes inoportunos, invasão do local de trabalho, da residência, ameaças, chantagens, invasão de nova relação do parceiro, não são incomuns. São conhecidos casos de homicídios e suicídios, movidos pelo amor próprio ferido pela rejeição. Em todos os casos sofrem brutalmente e fazem sofrer. Não raro, há fugas através do álcool, comida e drogas.

Esses casos podem ter conseqüências trágicas, devendo ser tratados psicoterapicamente.